quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

exercícios 1.0

Exercício de reaprendizado

Ele acordou. Talvez acordar seja uma palavra um tanto forte, mas é considerável que ele estava desperto, demasiado cedo e insone. Levantou, abriu o chuveiro ainda sonolento, tirou a roupa e entrou na água. Olhou o rosto no espelho de barbear, as olheiras, os olhos fundos, uma ruga. - Você tem rugas, ela disse. Sorrindo um desses sorrisos que não nos dizem nada, mas que poderiam, talvez. - É culpa da incidência solar dessa cidade e da falta de protetor, respondeu. Levou a mão ao rosto e se fitou no espelho. Por que era sempre tão chato? Tão prático e ao mesmo tempo prolixo. Tocou o rosto e por um segundo quase inteiro sentiu falta da presença dela e de seu quase sorriso de canto de boca. Ela piscou, na sua lembrança ela sempre piscava, era seu "charme", e era só dela. Meneou a cabeça, terminou o banho e se vestiu meticuloso como sempre, mas de forma a parecer despojado, nem muito nem pouco, exato, como sempre.
Sentou na cama e esquadrinhou o quarto com o olhar - Um exercício de egocentrismo, disse uma vez a outra pessoa. Pensou em todas as vezes que os desdobramentos de seu "eu" lhe impediram de ver os "ela" e mesmo agora, pensar que se lembrou de todas nada mais é que seu ego andando com os próprios pés. Ele era sozinho, mas não um destes sozinhos largados no mundo, não. Ele se tornara sozinho, pois achava que assim estaria seguro. Dissolveu sonhos, esmigalhou anseios, sepultou o que achava fraco e seguiu insosso. Franziu o cenho - "Insosso". Não, seu gosto musical não era nada insosso. Levantou, foi até o som. Havia muitos objetos sobre a mesa. - Músicas deixam rastros, disse ele. - Justo, ela respondeu. Como alguém pode responder "justo" e não soar condescendente? Ele nunca iria entender. Ele a encarou e ela piscou. Sorriu um sorriso de canto de boca, um quase sorriso e ligou o som. - Rastros, disse em voz alta para o que ele considerava uma versão exposta de sua própria cabeça. 
- É sobre você? Perguntou o amigo. - É tão óbvio? Respondeu ajeitando os óculos. - Isso não vai acabar bem, disse o outro. Estava deitado em um quarto, como num divã, como nas inúmeras outras vezes, o amigo estava sentado de costas para ele, ou estava do outro lado da mesa do bar, em outra casa em frente a um computador ou ao seu lado num sofá ou maca. A lembrança exata é irrelevante. - Isso definitivamente não vai acabar bem, disse outra vez. - Eu sei, respondeu seco. - Você não precisa agir assim, rebateu. - Eu sei, repetiu contraindo-se. - Você sempre foi mais centrado que isso. - Não nesse aspecto, sorriu. - Realmente, ponderou, e agora? Perguntou o amigo enfim. Apesar de geralmente logorréico, ele olhou para o nada e tentou achar algo. Tinha esse péssimo hábito de divisar o horizonte no exato ponto onde as ideias tocam os atos e se perder, sem dizer exatamente o que achava importante. Atendo-se e libertando apenas as bobagens inofensivas. Deixou-se ficar ali um pouco mais, era seguro. - Está tomando forma, disse o amigo retomando o assunto. - O quê? Foi pego de súbito. - Isto, balançou o caderno escuro, e isso, apontou para ele. Levantou da cama-cadeira-sofá-maca. Estava na sala de novo. - Você espera algo de mim? Perguntou a ela já se sentindo tolo. - Não, respondeu com a leveza de quem já dissera isso antes. "Hearts and thoughts, they fade away..." Desligou o som. - Merda, sua segunda palavra em voz alta. 
- Recapitulando: Ela é inteligente, criativa, fala mais que você e tem um belo par de pernas? - Um senhor par de pernas, concordou com a cabeça em expressão sonhadora. - Então, qual o problema? Ele sorriu um de seus risos mudos. Qual era o problema? Estava parado em frente à estante, objetos à mesa, som desligado. Sempre tinha um problema, sempre. Ela estava indo embora, ou já tinha ido a essa altura. Tinha ido desde o início provavelmente, antes mesmo do primeiro quase sorriso. - Você não pode perder o que não tem, lhe disseram uma vez. - Não, não posso, respondeu à estante, e não perderei. Ajeitou os nós das pulseiras, passou as mãos no próprio cabelo, se sentiu presente. Ele não era assim, não estava acostumado a agir ou se sentir assim, se sentia - Um hipócrita! Disse seu irmão em uníssono com alguns amigos, essa é a primeira coisa a se aprender sobre você. Gargalhou, depois sorriu amarelo. É, era um hipócrita, isso era um fato conhecido e revisado, sempre foi e sempre seria. Mas não era covarde. Foi à cozinha. Leite, ovos, pão, digo, torradas. Liberou espaço na mesa da sala, seu nível de organização refletia seu temperamento. Arrumou a mesa como se não comesse sozinho, ou como se comer sozinho fosse quase um ritual. Abriu as cortinas e sentou à mesa observando a cidade lá fora. - Você precisa vir aqui de dia, disse sorrindo a ela, é muito mais legal. Encheu a boca com torradas. Talvez não fosse mais "legal", mas sem dúvida era cotidiano, e era do cotidiano que ele gostava mais. Essa felicidade coloquial, sem muitos enfeites. Mastigou a ideia - Gosto de quando você está aqui, ele disse mais de uma vez. Ela o olhou, mas nada respondeu. Se respondeu, ele não se recordava. Malditos diálogos partidos, falavam tanto e, no entanto tanta coisa não dita. - Justo. Disse, sorriu, piscou. Injusto, pensou ele. 
Não gostava de parecer patético e era assim que se sentia agora fitando a louça suja na mesa. Queria ligar o foda-se, se enfiar em seus livros e voltar a ser só e prático. - É uma fantástica fortaleza de fantasia literária, caçoou o amigo. Era o seu mundo, e era só dele. Por que com todos os mil demônios ela circulava com tanta leveza por ali, quando por vezes ele mesmo tropeçava? "She came in through the bathroom window". - É que nós somos a mesma pessoa, ela disse. Não eles não eram, eram indivíduos singulares, com gênios parecidos e gostos semelhantes, mas só! Não? Retirou a louça, levou para a cozinha. Lavou, colocou para escorrer, enxugou as mãos no pano de prato. Precisava comprar mais leite, anotou isso. Foi à porta da casa, pegou as chaves, o celular - Eu acho que a encontrei! Disse num misto de medo e triunfo. - Nossa! Vindo de você me sinto até mais crente, respondeu o amigo. Riram ambos, riu sozinho. Olhou a tela do celular, e se? - Foi muito perto da viagem, você vive viajando também, não há tempo para construir algo que viva um ano, foi o que ela disse. - Não, claro que não há, respondeu. Acreditando nela e em si, mas detestando acreditar nisso. "10.000 pessoas lá fora (...) tanto ou mais que você (...) mas acontece que nunca conheço." Lembrou-se de mariana, uma livraria, o calçamento de pedras, um futuro confortável e histórias para contar. Era esse seu objetivo e deveria manter aí seu foco e não ficar agindo de forma lunática. - Tenha modos, disse a voz ríspida. Modos? Repetiu em voz alta. Mas de que maneira? 
Não sentiu aperto no peito ou nó na garganta, não era o tipo que somatizava. Foi durante muito tempo, fato, mas já não era mais. Era dotado de certa apatia, uma sensação de irrealidade, que só passava com música. "Insosso", já não o era. O distanciamento era reflexo de seu processo introspectivo de defesa. As muralhas de sua fortaleza. E lá estava ela, jogando amarelinha sobre as ruínas do front oeste. Por que lhe abrira os portões? Havia portões? Sua memória se tornava nebulosa, de certo não havia se lembrado dos portões. E como não houve invasão e sim uma ocupação discreta, só notou quando era tarde demais. Tarde demais para ele, claro. Não era ela que o ocupava, mas a projeção que ele fez dela em seu plano existencial único. 
Era por fim tão intrincado, exagerado e onírico que já não se sustentava sozinho com argumentos. Era um exercício cansativo e injustificável. Havia tantas possibilidades e variáveis que o mais fácil, ao oposto de se lançar como kamikaze ao encontro de devaneios vagos, era calar tudo e não tocar no assunto, curtir o tempo restante e deixar o resto à intenção, providência e sorte. - Justo, meneou a cabeça, quase sorriu, ajeitou os nós, piscou, consertou os óculos. Já não estava desperto, mas de fato, estava acordado.   

Salvadora 26 de novembro de 2013. Maurício Ladeia

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

nha.

Bom dia n-leitores,
Às vezes é bom se sentir um pouco mal, apenas por ter certeza que ainda se sente.